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Crianças na quarentena: veja dicas de brincadeiras e como evitar o excesso de telas

A pandemia mudou a vida de todos nós. Especialistas dão dicas de brincadeiras para os pais nessa quarentena.


Por Mariana Garcia, G1 03/09/2020

A pandemia da Covid-19 não é um desafio só para os adultos. Também é preciso entender como lidar com as crianças na quarentena. É normal elas estarem mais agressivas, agitadas, com transtornos de sono, alteração alimentar em tempos de isolamento social. Além disso, ficar 24 horas em casa pode trazer mais ansiedade para os filhos (Veja abaixo dicas para entreter os pequenos na quarentena).

Acostumadas a ir para a escola, brincar com os amiguinhos e fazer as atividades escolares, agora elas se veem “trancadas”, só com aulas virtuais, brincadeiras em casa e, às vezes, muita energia e pouco espaço.

O isolamento social modificou completamente a rotina de todos. “Estamos passando por um momento inusitado e cada um deve lidar com a pandemia a partir dos recursos que têm. Talvez os pais não vissem os filhos tão angustiados antes. Agora, o contato é 24 horas. É importante dizer para a criança o que está acontecendo, mas sempre com filtro. Ela tem condições de entender”, alerta a psicóloga e psicanalista Laura Carrasqueira Bechara. Mas os pais também precisam entender que estão falando com crianças. “Eles não devem exigir demais dos filhos. Eles têm curiosidade e necessidade de criança. Eles querem brincar, podem ter medo, podem ficar assustados, podem se sentir ameaçados”, completa Fernanda Luposeli Marcondes, psicóloga e psicanalista.


A importância das brincadeiras

Dependendo do estágio de desenvolvimento, as necessidades e formas de se comunicar com a criança são diferentes. Para as crianças pequenas, que frequentavam berçários e escolinhas, o isolamento não afetou tanto o dia a dia.

“Para elas, estar em casa com os pais é o melhor. O grande problema está no estresse dentro de casa. Se os pais estão estressados, eles acabam levando para as crianças”, explica a pediatra, hebiatra e psicanalista Marisol Montero Sendin, responsável pela Brinquedoteca Terapêutica do IPq-HCFMUSP.


Crianças de 2,5 a 5 anos precisam de acesso às brincadeiras lúdicas. Nessa fase elas estão desenvolvendo a parte simbólica. “Elas estão na fase de imitar os adultos. Tarefas domésticas transformadas em lúdico podem ser importantes para essa faixa etária.”

A partir dos seis anos, as crianças já estão sendo alfabetizadas e têm mais responsabilidades na escola. É importante acompanhar o dia a dia do filho e incentivar o estudo, mesmo que virtual. A falta do contato ao vivo com amigos e professores pode influenciar no desempenho escolar. A sugestão da pediatra é apostar em brincadeiras que gastem energia.


Dicas para os pais nessa quarentena

  • É importante manter a rotina das crianças. Ter horário para tomar café, almoçar, jantar, brincar. Lembrar que é importante manter a higiene pessoal. Não é só porque a criança está em casa, que ela não vai tomar banho, por exemplo. Os pais precisam explicar que são necessidades essenciais. “A escola é a principal referência de rotina. Se as crianças não estão indo, elas precisam ter uma organização em casa, mesmo que adaptada, com hora para a aula, hora do sono, hora do recreio. Cada família deve se organizar como pode”, diz Laura.

  • Invista em brincadeiras criativas, em que a criança seja a protagonista. Vale comprar papel, canetinha, massinha, tinta.

  • As telas não são inimigas, mas é preciso usar com consciência. Estipule um horário fixo para que a criança brinque no tablet, veja televisão. “O problema não é ver TV, mas é bom estar ao lado para conversar e interagir, entender o que a criança está interpretando daquilo”, fala Laura.

  • Jogos de tabuleiro promovem bons momentos em família.

  • Se a criança demonstrar curiosidade sobre um assunto, invista na pesquisa e use a tela de forma positiva. “Estimule pelo lado bom, procure coisas úteis. Se a criança tiver curiosidade sobre um país, por exemplo, use a internet para pesquisar o assunto”, orienta Fernanda.


Estimule a escrita e leitura. As crianças podem escrever cartas para os avós, amiguinhos, primos. “Todo aprendizado que a criança tiver esse ano não será perdido. Escrever à mão promove desenvolvimento cerebral, independente do que você está escrevendo”, diz Marisol.

  • A criança gosta de algum personagem? Que tal tentar criar uma fantasia? É hora de botar a mão na massa.

  • Inclua os pequenos também nas rotinas da casa: arrumar a cama, ajudar no almoço, preparar a mesa.

  • Crie momentos com seus filhos. Mesmo com o isolamento social, com o trabalho dobrado em casa, esses momentos são importantes para o desenvolvimento. “Os pais estão tendo oportunidade de aprender quem são os filhos. Estão se conectando de novo com as crianças. Tem mãe que diz que não conhecia o filho, porque só trabalhava”, comenta Fernanda.

  • Tente criar um horário fixo para o evento em família. Pode ser 30 minutos, uma vez por semana, o importante é ter esse tempo junto. “Nessa hora, a rigidez da educação pode ficar de lado. A criança fica mais solta e daí teremos uma troca lúdica entre pais e filhos. Além disso, essa expectativa faz com que a criança tenha um resto do dia mais motivado”, orienta Marisol.

  • Se tiver espaço, aposte em brincadeiras com movimento: pega-pega, esconde-esconde. Pode pular? Amarelinha. E uma gincana pela casa procurando objetos? Tudo isso faz a criançada gastar energia.

  • Converse com outros pais e tente marcar encontros virtuais das crianças com os amigos, fora do horário de aula.

  • Aposte na criatividade das crianças. Às vezes, a brincadeira não precisa ser mirabolante, como brincar de pentear o cabelo, por exemplo. “O mais importante não é a brincadeira em si, mas estar presente, ter esse tempo com seu filho”, completa Marisol.

  • A casa tem que proporcionar um pouco de tudo. É nela que a criança está passando o dia todo e está crescendo, se desenvolvendo, brincando, estudando.

  • Seja flexível. A bagunça vai existir. Depois é só arrumar. “Os pais devem permitir a bagunça. Essa pandemia está sendo um aprendizado muito grande para os pais e para os filhos. Uma criança passar por tudo isso é muito pesado”, finaliza Fernanda.

Casa da árvore no apartamento

Mãe da Alice (6 anos), Felipe (4 anos) e Pedro (1 ano e 9 meses), a fisioterapeuta Ana Paula Ventura aposta nas brincadeiras criativas para entreter os pequenos. Ela tinha uma clínica até o começo da pandemia e teve que parar. “O meu trabalho quadriplicou. Tive que entregar a clínica e agora faço trabalhos pontuais, abri agenda para pessoas que já conheço”.

A rotina das crianças tem de tudo um pouco. Desde as aulas on-line até construção de brinquedos. “A gente alugou brinquedos na quarentena, mas eles enjoam rápido. Então o Léo [o marido], estressado com o trabalho, começou a ver vídeos de marcenaria, mexer com madeira. Resolvemos então fazer uma casinha da árvore no apartamento”, conta.

Os filhos participaram de todos os processos, desde a construção até a decoração. “Construímos uma casa embaixo e decidimos criar um navio pirata na parte de cima. Agora estamos terminando o escorrega para eles descerem”.

A fisioterapeuta conta que o uso de telas é reduzido. Ela e o marido investem nas brincadeiras lúdicas, que tragam conhecimento para os filhos. “A gente tenta fazer coisas legais para eles não quererem tanto a TV. A Alice fica pouco, o Pedro gosta de ouvir música e o Felipe gosta de assistir Pokemon”.


As aulas on-line não são unanimidade na casa. A Alice está no primeiro ano, fase de alfabetização, e adora. Já o Felipe... “Ele não gosta. Eu desisti. Então olho o conteúdo da escola e tento trabalhar de outra forma, mais lúdica. Se ele está aprendendo uma letra, eu pego a fita crepe e colo no chão, por exemplo. Daí acabou incluindo os três nas atividades. Já a Alice adora [a aula on-line]. Ela já sabe ler, escrever, digitar”.

Mas a quarentena e o confinamento trouxeram coisas boas para a família. “Eles estão numa idade difícil, sempre brigando. Querendo ou não, a quarentena fez eles conviverem mais e hoje eles passam o dia todo brincando. Não existe brincadeira de menino e menina e o que eles mais gostam é de criar”, completa a fisioterapeuta.

Sobre o confinamento, quem mais sofre é a Alice, que sente falta dos amiguinhos. “Ela não liga de fazer a aula on-line, mas prefere o presencial. A gente fala que o vírus está lá fora, mas tentamos não sobrecarregar com muita informação. O mais importante é entender sobre as medidas de higiene”.


O uso de telas

O uso de telas (TV, tablet, computador, celular) sempre foi motivo de discussão. Pode? Não pode? Quanto tempo de exposição? Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um guia sobre o assunto. Nele, crianças menores de cinco anos não deviam passar mais de uma hora por dia diante das telas.

Mas com a pandemia, algumas coisas mudaram. Para começar, as crianças começaram a ter aulas virtuais, ou seja, ficam horas expostas em frente ao computador.

As telas não são proibidas, mas devem ser usadas com cuidado. Uma das dicas das especialistas é fazer com que a tela ‘trabalhe’ a favor dos pais. Se a criança tem curiosidade sobre um assunto, por que não procurar na internet?

Os pais também precisam ficar atentos ao que a criança assiste e joga.


O responsável pela criança também precisa estipular horários. Quanto tempo a criança pode usar? Até que horas? O filho precisa saber que quem está organizando a vida dele é o adulto.

Mudanças no humor

A mudança no humor é normal em tempos tão difíceis, mas isso não significa que a criança está doente ou desenvolvendo um quadro mais grave. “Os filhos estão diferentes, isso é um reflexo da pandemia”, explica o psiquiatra Daniel Barros.

Barros alerta que o comportamento da criança também reflete o comportamento dos pais. “Quando a criança está irritada, intolerante, os pais precisam refletir e pensar: como está o meu humor, minhas atitudes e comportamentos?”

Com todos em casa, juntos o dia inteiro, é importante controlar o humor, estresse e ansiedade, pois as crianças acabam sendo como uma esponja.


E como identificar que meu filho está doente? O psiquiatra diz que, quando o comportamento da criança muda, a ponto de ela sofrer prejuízos, é hora de ligar o sinal de alerta. “O que chama atenção é quando a criança tinha um determinado padrão e ela mudou o comportamento, a ponto de se tornar prejudicial, trazendo perdas para o dia a dia dela.”

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